Animais na religião: um vínculo histórico

24 Agosto, 2020
A caça pode ser a origem dos sacrifícios sagrados dos animais.

A presença dos animais na religião é caracterizada por sua variedade simbólica e sua diversidade, dependendo da divindade referente. Seja como guias, objetos de sacrifício ou meros companheiros, várias espécies contribuíram para o culto sagrado.

A realidade mais óbvia é que os animais na religião são estranhos à natureza do homem. Isso foi confirmado pela rejeição dos fiéis à obra A Origem das Espécies, com a qual Charles Darwin divulgou sua teoria da evolução humana em 1859.

Essa dualidade homem-animal aprimora a missão das diferentes religiões de ‘elevar’ o ser humano além de sua própria animalidade terrestre, confraternizando com o divino.

Papel dos animais na religião

Apesar da dualidade mencionada, vale ressaltar a importância que a presença animal ganhou em vários contextos religiosos. Nesse aspecto, os praticantes da fé e os teólogos estabelecem duas categorias principais:

  • Animais de sinalização ou mensageiros. Agem como seres com propriedades especiais e divinas que servem para guiar ou iluminar o homem em direção à divindade. Inúmeros exemplos aparecem nas narrativas bíblicas de cristãos e judeus.
  • Animais como populações discretas. Agem como um grupo de indivíduos, alheios à natureza humana, mas relevantes em relação ao seu simbolismo sagrado. Um exemplo seriam os macacos localizados nas proximidades dos templos budistas.
Papel dos animais na religião

Essa ampla classificação pode sofrer derivações subjacentes, uma vez que a diversidade de ritos, deuses e, em geral, a origem e evolução das diferentes religiões, complica a homogeneização do simbolismo animal.

Portanto, animais de sinalização que às vezes agem como transmissores podem, em outras vezes, alcançar o status divino, tornando-se objetos de adoração. O conceito de culto aos animais é atribuído aos polemistas gregos e romanos que os usavam para mostrar sua rejeição às teorias teriomórficas, cujos deuses tinham forma de animais.

No entanto, é preciso notar que seu culto, na maioria dos casos, não era destinado às espécies em questão, e sim ao poder sagrado que havia reencarnado em um novo ser.

Entre os mais conhecidos estão os elefantes, considerados um símbolo de boa sorte pelos hindus. Seu expoente máximo é Ganesha, que tem a cabeça do referido animal e corpo humano.

Ganesh

A origem dos sacrifícios

Frente ao respeito mostrado a esses animais na religião, há também os sacrifícios. Apesar da dificuldade de explicar sua origem, diferentes estudiosos religiosos, como o alemão Walter Burkert ou o historiador romeno Mircea Eliade, atribuem isso à uma tensão emocional.

O homem, ao contrário de outras espécies, quando pratica a caça, simpatiza com o sofrimentoEssa tensão entre a compaixão e a necessidade de matar deu origem a rituais pré-caça que foram, posteriormente, extrapolados para o domínio religioso.

Para Burkert, quando o homem caça, um instinto típico de animal é despertado nele, daí a sua frase “na caça, deve-se tratar um animal que é muito semelhante a um humano da maneira que você não deve tratar um humano”, dando origem aos sacrifícios consequentes.

A catarse gerada pelo triunfo, e a ansiedade de ter matado, supunham a origem de diversas práticas destinadas a evidenciar o ‘consentimento’ do animal. É um mito herdado da mitologia grega ou dos rituais dos antigos israelitas na Bíblia.

Homogeneizar o papel dos animais na religião é complexo e teoricamente inviável, dada a diversidade de cultos existentes. No entanto, sua contribuição direta ou indireta para a iluminação do homem parece ser uma característica comum nos diferentes tipos de fé.

  • Encyclopaedia Britannica. Animal Worship.(S.f). Recuperado de https://www.britannica.com/topic/animal-worship
  • Gross, A. S. (2017). Oxford Handbooks Online. Religion and Animals. Recuperado de https://www.oxfordhandbooks.com/view/10.1093/oxfordhb/9780199935420.001.0001/oxfordhb-9780199935420-e-10