Como as ursas cuidam dos seus filhotes?

29 Outubro, 2020
As fêmeas de urso-pardo são mães leais e atenciosas, pois cuidam de suas descendências durante mais de um ano até que os filhotes se emancipem.

O urso-pardo (Ursus arctos) pode parecer um mamífero letal, pois, quando se levanta sobre as patas traseiras, mesmo o ser humano mais intrépido sente pavor. Mas, apesar de sua aparência imponente, observar como as ursas cuidam dos seus filhotes é uma visão tão comovente quanto fascinante do ponto de vista evolutivo.

Além de seus instintos naturais, as pressões evolutivas levaram as ursas a adotar novas táticas para evitar os perigos impostos pela espécie humana. Se você quiser saber como as ursas cuidam dos seus filhotes em um mundo globalizado, recomendamos que você continue lendo.

Sobre o urso-pardo

Antes de mergulharmos nas táticas maternas dessa espécie, é necessário conhecer alguns dos fatos mais relevantes sobre o urso-pardo. Estamos diante de um mamífero da família Ursidae, típico da Eurásia e da América do Norte. Possui uma amplitude morfológica bastante marcada, pois seu comprimento varia de um metro e meio até 2,95 metros e seu peso varia de 100 kg até 675 kg.

Esses animais são onívoros, pois possuem quatro caninos pontiagudos em seu aparelho mandibular, típicos dos carnívoros, mas também possuem incisivos e molares adequados para cortar ervas e caules.

No que diz respeito à reprodução, os ursos se reproduzem entre maio e julho e a gestação dura cerca de dois meses. Durante o período de cuidado parental, é comum ver as fêmeas se deslocando em núcleos familiares com seus filhotes (de um a três filhotes, embora mais da metade dos grupos sejam formados por dois filhotes e a mãe).

Durante esse período, que dura aproximadamente um ano e meio, suas atividades são distribuídas da seguinte forma:

  • Mais de 60% do tempo é gasto em busca de comida.
  • 22% corresponde à movimentação da família, geralmente associada a atividades de forrageamento.
  • Investem muito pouco tempo no descanso (9,4%), nos processos de amamentação (1,2%) e o que menos fazem é brincar (1%).
As fêmeas de urso-pardo

Novas técnicas adaptadas aos novos tempos

Apesar da estampagem genética que as diversas espécies animais possuem, elas se adaptam ao meio e às suas diferentes mudanças. A seguir, vamos mostrar como as ursas cuidam dos seus filhotes em um ambiente altamente modificado pelo ser humano.

As ursas usam os humanos como uma “barreira”

Um estudo publicado na revista Royal Society permitiu a descoberta de comportamentos incomuns por parte de ursas com filhotes. Embora possa parecer inacreditável, as fêmeas com filhotes (localizadas na Suécia) se aproximam de núcleos populacionais humanos para evitar agressões por parte dos machos.

É comum que os machos de urso-pardo escolham matar os filhotes de uma fêmea com quem não procriaram, pois é possível que, dessa forma, ela se mostre mais receptiva sexualmente em menos tempo. Por isso, a seleção de um habitat adequado pela mãe ursa influenciará diretamente na sobrevivência dos seus filhotes.

Nesse estudo, foi observado que as mães mais bem-sucedidas foram aquelas que escolheram habitats próximos aos humanos. Elas escolhem áreas próximas a núcleos populacionais com vegetação suficiente para proteger a si e suas famílias, já que os machos no cio não se aventuram muito longe das florestas exuberantes. Portanto, essas mães corajosas nos usam como escudo para evitar que seus filhotes sejam mortos.

As ursas cuidam dos seus filhotes por mais tempo por medo de serem caçadas

Nem todas as interações do urso-pardo com o ser humano são positivas, pois um estudo da revista Nature Commons mostrou que o tempo de permanência dos filhotes com a mãe aumentava com a presença de caçadores.

As fêmeas geralmente cuidam dos filhotes durante um ano e meio, mas os dados mostram que esse período pode se estender por até 2,5 anos, especialmente em áreas onde a caça representa uma ameaça à sobrevivência. Pela legislação, as mães acompanhadas por seus filhotes são protegidas da caça. Por isso, quanto mais tempo ficarem com seus filhotes, mais vão aumentar suas chances de sobrevivência.

Esse é um claro caso de trade-off evolutivo, pois, quanto mais ficarem com seus filhotes, menos as fêmeas poderão se reproduzir, mas poderão viver por mais tempo.

O risco de uma fêmea ser caçada é quatro vezes maior quando ela está sozinha do que quando está acompanhada por seus filhotes.

As fêmeas de urso-pardo

Os dois lados da moeda

Assim, como podemos ver, os seres humanos podem ser tanto benéficos quanto prejudiciais para uma fêmea de urso-pardo com filhotes. Embora esses mecanismos adaptativos sejam fascinantes, não podemos deixar de pensar que, como espécie, é problemático que a nossa atividade seja tão prejudicial a ponto de gerar mudanças nos comportamentos ancestrais de outras espécies.

  • Steyaert, S. M. J. G., Leclerc, M., Pelletier, F., Kindberg, J., Brunberg, S., Swenson, J. E., & Zedrosser, A. (2016). Human shields mediate sexual conflict in a top predator. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences283(1833), 20160906.
  • Van de Walle, J., Pigeon, G., Zedrosser, A., Swenson, J. E., & Pelletier, F. (2018). Hunting regulation favors slow life histories in a large carnivore. Nature communications9(1), 1-10.