Criptobiose: um processo fascinante

26 Setembro, 2020
Quando as situações ambientais são extremas, os animais precisam adotar medidas para garantir sua sobrevivência. A criptobiose é uma delas.

Você sabia que existem animais capazes de se inativar diante de situações extremas? Hoje vamos falar sobre a criptobiose.

É isso mesmo! Alguns seres vivos entram em um estado de latência durante o qual não realizam nenhum tipo de atividade metabólica. Isso permite que sobrevivam a condições ambientais extraordinárias, tais como dessecação, falta de oxigênio, baixas temperaturas, radiação letal ou uma combinação de todas elas.

Queremos te convidar a continuar lendo, pois você está a ponto de conhecer um dos processos mais fascinantes da natureza: a criptobiose.

Inativação para a sobrevivência

A criptobiose é um processo realizado por alguns organismos diante de condições adversas. Nesse estado, eles cessam a atividade metabólica, de modo que não se reproduzem nem se desenvolvem até que as condições se tornem favoráveis ​​novamente. Portanto, é uma fase reversível que alguns chamam de processo de ressurreição.

Dessa forma, esses seres são capazes de sobreviver durante um longo período de tempo nesse estado. Podemos até mesmo falar em períodos indefinidos, ou, teoricamente, infinitos.

Além das bactérias, diversos animais invertebrados, tais como cistos embrionários de crustáceos, rotíferos, nematoides e tardígrados, possuem essa capacidade. Também foram vistos casos em alguns tecidos vegetais, sementes de algumas plantas, propágulos e até plantas superiores.

Pelo que foi visto, parece que essa fase permite que os organismos fiquem à beira da vida, mas também da morte. É por isso que alguns cientistas concluem que esse estado é considerado a terceira forma de organização biológica: o estado criptobiótico.

Criptobiose: um processo fascinante

Os 4 tipos de criptobiose

Foram descritos até quatro tipos de criptobiose, de acordo com a situação ambiental extrema enfrentada pelos seres vivos:

Anidrobiose

Esse tipo de criptobiose ocorre quando os seres passam por longos períodos de dessecação e é caracterizado pela perda de água por evaporação. Dessa forma, o animal perde mais de 95% da água corporal e suspende o metabolismo.

Criobiose

Um organismo entra em estado de criobiose quando as condições de temperatura são extremamente baixas. Assim, ele consegue sobreviver ao congelamento.

Para que esse processo ocorra de maneira adequada, a velocidade de resfriamento deve ser lenta. O segredo da criobiose é o congelamento do organismo, porém evitando a cristalização dos líquidos para não danificar os tecidos internos. Os seres que passam por esse processo podem viver durante anos em estado de criobiose.

Anoxibiose

Esse estado é induzido quando os níveis de oxigênio no ambiente são muito baixos ou até mesmo inexistentes.

Osmobiose

Os animais que apresentam esse tipo de criptobiose são aqueles que enfrentam uma grande variedade de concentrações de sal.

A criptobiose: exemplo de animais criptobiontes

Artêmias salinas

Quando as circunstâncias não são ideais para o desenvolvimento e crescimento das larvas desses pequenos crustáceos, os ovos entram em um estado inativo durante um longo período de tempo, que pode durar até 10 anos.

Dessa forma, eles serão capazes de resistir a situações extremas, tais como ausência de água e oxigênio, bem como a temperaturas abaixo de zero. Durante esses estados de criptobiose, os ovos encistam e cessam todos os processos metabólicos até que as condições de água, oxigênio e temperatura sejam favoráveis.

Criptobiose: um processo fascinante

Rotíferos

Os rotíferos da classe Bdelloidea são invertebrados microscópicos que vivem em água doce.

Eles são capazes de entrar em anidrobiose sob condições de dessecação. Para isso, quando a água evapora, eles adotam uma formação denominada “tuns”, através da qual reduzem o volume corporal porque compactam seus órgãos e fazem a luz desaparecer dos órgãos ocos.

Os tardígrados

Esse é o organismo criptobionte por excelência.

Os tardígrados, comumente conhecidos como ursos d’água, são animais microscópicos que habitam tanto ambientes terrestres quanto marinhos e de água doce. O mais surpreendente é que eles são capazes de experimentar os quatro tipos de criptobiose:

  • Durante a anoxibiose esse microrganismo se torna imóvel, transparente e até mesmo rígido, e pode permanecer nesse estado por até 5 dias, exceto para espécies estritamente aquáticas que podem suportar no máximo 3 dias.
  • Quanto ao estado de criobiose, é uma situação que permite que sobrevivam congelados durante vários anos.
  • Por outro lado, a osmobiose é uma habilidade que permite que os tardígrados de água doce se contraiam quando colocados em um ambiente salino, enquanto as espécies marinhas se tornam túrgidas em água doce.
  • Por fim, quando esses animais passam por situações em que a quantidade de água ao seu redor diminui, eles se contraem, retraem a cabeça e as patas até adotar a forma “tun” imóvel (assim como os rotíferos) e entram em estado de anidrobiose.

Dessa forma, os tardígrados são altamente resistentes a condições ambientais extremas, tais como:

  • temperaturas que vão desde -273°C até 150°C,
  • altas pressões,
  • o vazio do espaço,
  • radiação (tanto raios-X quanto UV),
  • produtos químicos.
Criptobiose: um processo fascinante

A criptobiose: conclusão

Assim, como podemos ver, a criptobiose é um processo fascinante que permite a sobrevivência de certos animais mesmo que os fatores ambientais sejam desfavoráveis. Essa capacidade permite que colonizem ambientes ou situações inviáveis ​​para outros organismos.

Portanto, essa é uma vantagem no mundo animal e mais um exemplo de que a natureza nunca deixará de nos surpreender.

  • Nelson, D.R., Guidetti, R. and Rebecchi, L. Phylum Tardigrada. Thorp and Covich’s Freshwater Invertebrates: Ecology and General Biology: Fourth Edition. (2015).
  • Clegg, J.S. Cryptobiosis: a peculiar state of biological organization. Comp Biochem. Physiol. B. Biochem. Mol. Biol. (2001) 128(4):613,624.
  • Marotta, R., Lease, F., Ugetti, A., Ricci, C. and Melone, G. Dry and survive: morphological changes during anhydrobiosis in a bdelloid rotifer. J. Struct. Biol. (2010) 171(1):11-17.
  • Martínez-Espinosa, R. Gambas y microalgas de las salinas como alimento de los fringílidos. Ornitología práctica (2015) 71: 54-57.