O possível uso de insetos como armas biológicas

20 Dezembro, 2019
Em pesquisas recentes, algumas espécies de insetos têm sido usadas como portadoras de vírus modificados para favorecer a produção agrícola; apesar dos usos positivos, alguns cientistas consideram que tais avanços podem ser empregados como armas biológicas.

Os insetos são a classe de animais com o maior número de espécies no planeta, já que representam quase 90% das formas de vida. A sua grande variedade faz com que eles sejam os seres vivos com a maior capacidade adaptativa e, portanto, com a maior probabilidade de sobreviver diante de qualquer eventualidade. Você já parou para pensar no possível uso de insetos como armas biológicas?

Nos últimos anos, os norte-americanas vêm fazendo pesquisas para modificar algumas espécies de insetos para utilizá-los como propagadores de vírus que beneficiem o aumento da produção agrícola. É o que ocorre no projeto que tem o nome de Insect Allies (Insetos Aliados).

Apesar do seu possível uso benéfico, alguns cientistas temem que essas investigações possam ser empregadas para desenvolver armas biológicas por meio dos insetos modificados. Em outras palavras, usar os insetos como uma armas de guerra propagando doenças ou destruindo plantações.

No que consiste o Insect Allies?

O programa que tem como nome Insect Allies é formado por quatro projetos, todos conduzidos por universidades norte-americanas e financiados pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa. Essa instituição pertence ao Departamento de Defesa do país citado.

Os projetos divulgaram no que consistem os experimentos que realizam com algumas espécies de insetos.

Três deles procuram empregar vírus manipulados para proteger as plantações e torná-las mais resistentes: são empregados insetos como vetores de vírus modificados em laboratório.

O projeto da Universidade Estadual da Pensilvânia está voltado para os cultivos de tomate usando moscas-brancas (Aleyrodidae).

Insetos que destroem plantações

Dois projetos estão voltados para melhorar o milho, o principal produto agrícola dos Estados Unidos. Esses projetos são conduzidos pela Universidade Estadual de Ohio e pelo Instituto Boyce Thompson.

O quarto projeto do programa, conduzido pela Universidade do Texas, não emprega vírus modificados, mas sim bactérias. A pesquisa emprega uma bactéria hóspede dos pulgões (Aphididae) para beneficiar os feijões.

Essas pesquisas foram financiadas com o propósito de procurar alternativas para aumentar a produção agrícola. Ou seja, para substituir o uso de pesticidas, a seleção artificial e as quarentenas, entre outras técnicas.

Um aspecto essencial que esses projetos devem garantir é a segurança na hora do uso. Portanto, cada projeto devia bolar uma chave de segurança para ser acionada em caso de emergência, tudo isso para poder ativá-lo ou desativá-lo quando fosse conveniente.

Algumas ideias que foram dadas incluem gerar geneticamente insetos com uma menor longevidade ou vírus temporários.

Uso dos insetos como armas biológicas

Alguns biólogos viram com suspeita essas pesquisas financiadas pelo Departamento de Defesa americano. Em conjunto, vários biólogos europeus publicaram um artigo na revista Science sobre o possível uso dos insetos do Insect Allies como armas biológicas: eles alertavam sobre os riscos, sem negar os possíveis usos positivos.

A sua principal preocupação é a facilidade de transformar os avanços de tal programa em armas biológicas, já que o seu uso poderia vir a ser letal e, além disso, muito difícil de rastrear.

Os insetos poderiam até mesmo ser projetados para infectar plantações de inimigos, tornando-as estéreis ou menos produtivas.

O possível uso de insetos como armas biológicas

Outra crítica ao programa foi o seu empenho em empregar insetos, já que existem outras maneiras de propagar vírus modificados. Por exemplo, as tecnologias de dispersão mecânica são muito mais confiáveis e controláveis do que o uso de milhares de insetos propagadores de vírus.

Além disso, os insetos poderiam vir a gerar uma crise sanitária e ambiental se chegassem a uma propagação descontrolada, que vai além das plantações necessárias.

No entanto, a preocupação maior é a mudança que usar insetos como armas biológicas geraria na forma de fazer guerras, já que outras nações modificariam os seus próprios insetos e vírus e os empregariam para contra-atacar.

Portanto, a modificação dos animais poderia se transformar na forma mais comum e efetiva para fazer acontecer um conflito bélico.

É claro que o governo dos Estados Unidos negou o possível uso dos insetos e vírus modificados como armas biológicas: ele reitera que o seu único objetivo é tornar as plantações mais resistentes dentro do seu país.

Reeves, R. G.; Voeneky, S.;  Caetano-Anollés, D.; Beck, F. &  Boëte, C. (2018): “Agricultural research, or a new bioweapon system?”. Science, Vol. 362 – 6410: pp. 35-37.