O que é matrifagia?

09 Outubro, 2020
Você sabia que existem alguns animais que comem suas mães depois que nascem? Por mais chocante que possa parecer, essa estratégia, chamada matrifagia, faz sentido no reino animal.

É bem sabido que os pais dão suas vidas pelos filhos, visto que comportamentos altruístas paternos são observados tanto no reino animal quanto em muitas sociedades humanas. Ainda assim, existem estratégias parentais extremas que vão muito além de proteger a prole. Esse é o caso da matrifagia.

Você sabe em que consiste esse termo? Sabe qual é o significado evolutivo disso? Aqui vamos responder a essas perguntas e muito mais.

O cuidado parental e a sua relação com a prole

O cuidado parental é definido como qualquer característica dos pais que aumente as chances de sobrevivência dos filhos, possibilitando a reprodução e a transmissão dos genes para a próxima geração. Esse mecanismo é evidenciado através de características comportamentais e não comportamentais.

O cuidado parental não é um processo gratuito, pois em todos os casos os pais têm que desviar recursos e energia que seriam destinadas a eles em princípio. Cada alimento que trazem para os filhos é algo que eles não colocam em suas bocas. Portanto, o cuidado parental é pouco comum em muitos animais:

  • Nos invertebrados é muito raro e, quando existe, é demonstrado pelas fêmeas.
  • Nos peixes, quando existe, são os machos que cuidam da prole.
  • Os pássaros tendem a ter um tipo de cuidado biparental no qual ambos os sexos trabalham para criar seus filhotes.
  • Por fim, nos mamíferos são sempre as fêmeas que cuidam dos filhos.

Para os pais, trata-se de um investimento, pois eles reduzem suas próprias chances de sobrevivência e reprodução no futuro, a fim de proporcionar o melhor destino possível para seus filhos.

O cuidado parental e a sua relação com a prole

O que é matrifagia?

A matrifagia é o tipo mais extremo de cuidado parental, pois se baseia no consumo da mãe pelos filhotes. Esse comportamento é observado apenas em invertebrados e em um grupo de anfíbios, os cecilianos.

Neste último, esse processo não é completo, pois a mãe não morre enquanto alimenta seus filhos. Cecílias fêmeas permitem que seus filhotes se alimentem do tecido do oviduto, o que naturalmente causa danos, mas não acaba com sua vida. Outro caso bem diferente é o que vamos mostrar a seguir.

Um caso específico: Amaurobius ferox

Essa pequena aranha está distribuída por toda a Europa e a América do Norte. Além de sua imagem, comum a de muitos aracnídeos, as fêmeas dessa espécie se caracterizam pelo extremo altruísmo com seus filhotes.

Nesse caso, a fêmea permanece com a ooteca (ou ovo) até que os filhotes saiam dela. Em primeiro lugar, coloca uma segunda leva de ovos para alimentá-los, para depois estimular seus filhos a se alimentarem do seu próprio corpo. Os filhotes injetam seu veneno no corpo da mãe para causar uma morte rápida.

Os benefícios que essa estratégia traz para a prole são mais do que claros. Alguns deles são os seguintes:

  • O corpo da mãe é fonte de nutrição, o que resulta em um melhor crescimento e desenvolvimento da prole.
  • A matrifagia acelera o processo de muda. Os invertebrados mudam os exoesqueletos após intervalos de tempo periódicos, e essa estratégia parental encurta tais intervalos.
  • Os filhotes que se alimentam das mães têm uma taxa de sobrevivência muito maior do que as de outras espécies.
  • A matrifagia promove a sociabilidade entre os membros da prole, pois evita processos como o canibalismo entre irmãos.

Está claro que os filhotes se beneficiam desse comportamento de várias maneiras, mas o que a mãe ganha com isso? Um estudo científico tentou responder a essa pergunta, uma vez que os filhotes foram separados da mãe antes de ela ser devorada em condições de laboratório. Os resultados foram os seguintes:

  • 80% das fêmeas que foram separadas dos seus filhos colocaram uma segunda bolsa de ovos. Apenas 40% de todos os novos filhotes sobreviveram, em comparação com 90% da primeira leva.
  • O número de ovos postos na segunda leva foi significativamente menor em comparação com a primeira.

Assim, esses resultados deixam claro para nós que simplesmente não vale a pena para a fêmea continuar vivendo depois de dar origem à primeira geração de descendentes. Se a sobrevivência de uma segunda leva de ovos é tão baixa, por que se dar ao trabalho?

Um caso específico: Amaurobius ferox

Matrifagia: uma questão de genética

No final, todas as estratégias evolutivas encontram uma resposta na genética. A maioria dos animais não se percebe como entidades autônomas (ou isso não foi provado), então, sua principal preocupação é que sua linhagem seja mantida ao longo do tempo.

É por isso que alguns pais lutam com unhas e dentes para proteger seus filhotes, enquanto outros se deixam ser devorados por inteiro para que seus filhotes possam prosperar. A matrifagia é um conceito chocante para os humanos, mas certamente tem um significado evolutivo claro.

  • Kim, K. W., Roland, C., & Horel, A. (2000). Functional value of matriphagy in the spider Amaurobius ferox. Ethology106(8), 729-742.
  • Kim, K. W., & Horel, A. (1998). Matriphagy in the spider Amaurobius ferox (Araneidae, Amaurobiidae): an example of mother‐offspring interactions. Ethology104(12), 1021-1037.