É verdade que os tubarões não ficam doentes?

28 Outubro, 2020
Por mais incríveis que sejam esses animais, a ideia de que os tubarões não ficam doentes é falsa. Assim como qualquer outro animal, eles também são suscetíveis a parasitas e diversas doenças, incluindo o câncer.

Existem muitas razões para sentir uma fascinação por esses animais. No entanto, a crença de que os tubarões não ficam doentes não faz parte da lista. Para apreciar esses titãs marinhos, devemos conhecer melhor sua incrível biologia.

Primeiramente, devemos saber que os tubarões estão nesse mundo desde muito antes da Era dos Dinossauros. De fato, seu registro evolutivo remonta a cerca de 450 milhões de anos atrás. Portanto, essas criaturas possuem adaptações que permitiram sua sobrevivência onde muitas outras espécies não conseguiram.

Uma das suas características mais marcantes, que compartilham com suas parentes, as arraias, é o fato de que eles não têm ossos no corpo. Seus esqueletos são feitos inteiramente de cartilagem. Além disso, um tubarão pode produzir mais de 30 000 dentes ao longo da vida. Assim, quando um dente se desgasta, ele cai e é substituído por outro das fileiras posteriores.

A ideia de que os tubarões não ficam doentes é um mito

O mito de que os tubarões não ficam doentes é alimentado nas redes sociais, pois é comum ler que esses são os únicos animais que nunca ficam doentes ou que são até mesmo imunes a todas as doenças conhecidas, incluindo o câncer.

No início dos anos 1990, ficou famoso um livro não científico que “revelava” como a cartilagem de tubarão poderia salvar pacientes com câncer. Embora o documento não afirmasse que os tubarões nunca tivessem câncer, ele argumentava a rara ocorrência de tumores sólidos neles.

As supostas propriedades milagrosas do uso da cartilagem de tubarão contra o câncer

Para entender esses argumentos, é preciso primeiramente entender o conceito de angiogênese. Essa palavra se refere ao processo através do qual novos vasos sanguíneos se desenvolvem a partir da vasculatura já presente. Assim, a angiogênese é a formação de novos capilares nos tecidos.

Por outro lado, a angiogênese é comum em muitos tipos de tumores e está associada ao crescimento tumoral. Além disso, não há vasos sanguíneos na cartilagem, ou seja, ela é avascular.

O desenvolvimento de tumores malignos envolvendo a cartilagem só é observado muito raramente. Por esses motivos, o mercado de produtos alternativos considera a cartilagem uma fonte de compostos antiangiogênicos.

o mito de que os tubarões não ficam doentes

A ciência refuta o mito de que os tubarões não ficam doentes

Ao contrário da crença popular, o fato de que os tubarões apresentem várias doenças é inquestionável. Sem dúvida, relatórios científicos já registraram a incidência de câncer em tubarões, incluindo os condromas (câncer da cartilagem).

Até agora, foram documentados tumores  em pelo menos 23 espécies de tubarões. É provável que os relatos de casos aumentem conforme a pesquisa dirigida ao câncer em tubarões for crescendo.

É importante destacar que, embora a cartilagem possa ter propriedades antiangiogênicas, sua eficácia como tratamento não foi comprovada. Ou seja, a ingestão oral de cartilagem de tubarão em pó não apresenta efeitos preventivos contra o surgimento de tumores cancerígenos.

A cartilagem de tubarão não serve como terapia para o câncer

É conveniente destacar que um composto denominado Neovastat, extraído da cartilagem de tubarão, foi avaliado em combinação com a quimioterapia em um ensaio clínico de fase III para o câncer de pulmão. No entanto, após mais de seis anos de acompanhamento, o ensaio foi encerrado por causa da falta de eficácia terapêutica.

Esse foi o mesmo destino do ensaio clínico de fase II para o carcinoma de células renais refratário. O mesmo aconteceu em estudos com pacientes com câncer de mama e de cólon.

Em nenhum desses estudos houve uma melhora na sobrevida geral. Apesar dos resultados negativos contra o câncer, o mercado agora tenta associar os tubarões ao tratamento de doenças como a psoríase.

Embora nenhum estudo tenha mostrado que a cartilagem de tubarão seja um tratamento eficaz, a demanda por cartilagem de tubarão ajudou a dizimar as populações desse animal.

A importância dos tubarões para o ecossistema marinho

De acordo com um estudo de 2013, os humanos matam cerca de 100 milhões de tubarões a cada ano. É válido destacar que a pesca excessiva desses animais ocorre por causa da demanda por sua carne, óleo de fígado, cartilagem e valiosas barbatanas. Muitas vezes, a barbatana é cortada de tubarões vivos para ser usada como ingrediente da sopa de barbatana de tubarão, uma antiga e valiosa iguaria asiática.

É importante destacar que o esgotamento das populações de tubarões é preocupante porque, como são predadores de topo, eles ajudam a equilibrar os ecossistemas nos oceanos do mundo. Se não tivermos um número suficiente desses predadores, ocorrerão mudanças em cascata no ecossistema, afetando até mesmo as plantas marinhas.

Progressivamente, organizações como a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), aumentam a lista de espécies de tubarão com proteção comercial. No entanto, essas iniciativas podem chegar tarde demais.

A reprodução do tubarão é variada e complexa

Dependendo da espécie, os tubarões podem se reproduzir de três maneiras:

  1. Oviparidade: botam ovos e os depositam em um local seguro para a eclosão.
  2. Viviparidade: tubarões vivos nascem diretamente.
  3. Ovoviviparidade: carregam os filhotes em bolsas de ovos que eclodem no útero, desenvolvendo-se no corpo da mãe e nascendo como tubarões vivos. É uma combinação das duas primeiras estratégias.

Além disso, a duração da gestação varia de acordo com a espécie de tubarão, podendo ser de 5 a 42 meses. Além disso, a ninhada pode ter entre dois (vivíparos) e 100 (ovíparos) filhotes. A principal consequência dos períodos de gestação muito longos é que as espécies vulneráveis ​​de tubarões se recuperam muito lentamente em termos numéricos.

Uma vez que os tubarões apresentam lentas taxas de crescimento e reprodução, pode ser difícil para que suas populações se recuperem de grandes perdas.

o mito de que os tubarões não ficam doentes

Conservação e conhecimento

A sociedade é um mecanismo que pode ditar o padrão de comportamento de um paciente, o tipo de tratamento que ele busca e aquele que é finalmente adotado. Portanto, é preciso ponderar que as falsas crenças sociais criam obstáculos intransponíveis.

É importante ter em mente que as informações que obtemos por meio da internet e da mídia impressa, na sua maioria, não são regulamentadas e podem apresentar pontos de vista extremos que agravam os problemas já existentes. Sem dúvida, o comércio de materiais procedentes de tubarões para combater o câncer é um claro exemplo da ignorância humana.

  • Ostrander, G. K., Cheng, K. C., Wolf, J. C., & Wolfe, M. J. (2004). Shark cartilage, cancer and the growing threat of pseudoscience. Cancer research, 64(23), 8485-8491. https://cancerres.aacrjournals.org/content/64/23/8485
  • Mehta, P., Bhajoni, P., & Mehta, S. (2016). Fighting cancer through an informed society. Journal of Social Health and Diabetes, 4(2), 57-66.  https://d-nb.info/1183549881/34
  • Borucinska, J. D., Schmidt, B., Tolisano, J., & Woodward, D. (2008). Molecular markers of cancer in cartilaginous fish: immunocytochemical study of PCNA, p‐53, myc and ras expression in neoplastic and hyperplastic tissues from free ranging blue sharks, Prionace glauca (L.). Journal of fish diseases, 31(2), 107-115.
  • Robbins, R., Bruce, B., & Fox, A. (2014). First reports of proliferative lesions in the great white shark, Carcharodon carcharias L., and bronze whaler shark, Carcharhinus brachyurus Günther. Journal of fish diseases, 37(11), 997-1000. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jfd.12203
  • Ernst, E. (2006). Why there will never be an alternative cancer cure. Anti-cancer drugs, 17(9), 1023-1024. https://journals.lww.com/anti-cancerdrugs/Citation/2006/10000/Why_there_will_never_be_an_alternative_cancer_cure.3.aspx
  • Criscitiello, M. F. (2014). What the shark immune system can and cannot provide for the expanding design landscape of immunotherapy. Expert opinion on drug discovery, 9(7), 725-739. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1517/17460441.2014.920818
  • Henningsen, A. D., Smale, M. A. L. C. O. L. M., Garner, R., & Kinnunen, N. I. N. O. (2004). Reproduction, embryonic development, and reproductive physiology of elasmobranchs. The elasmobranch husbandry manual: captive care of sharks, rays and their relatives. Biological Survey, Ohio, 227-236. http://www.academia.edu/download/54676898/Elasmobranch_Husbandry_Manual_1.pdf#page=235
  • Borucinska, J. D., Harshbarger, J. C., & Bogicevic, T. (2003). Hepatic cholangiocarcinoma and testicular mesothelioma in a wild‐caught blue shark, Prionace glauca (L.). Journal of Fish Diseases, 26(1), 43-49.
  • Lu, C., Lee, J. J., Komaki, R., Herbst, R. S., Feng, L., Evans, W. K., Choy, H., Desjardins, P., Esparaz, B. T., Truong, M. T., Saxman, S., Kelaghan, J., Bleyer, A., & Fisch, M. J. (2010). Chemoradiotherapy with or without AE-941 in stage III non-small cell lung cancer: a randomized phase III trial. Journal of the National Cancer Institute, 102(12), 859–865. https://doi.org/10.1093/jnci/djq179
  • Batist, F. Patenaude, P. Champagne, D. Croteau, C. Levinton, C. Hariton, B. Escudier, E. Dupont (2002). Neovastat (AE-941) in refractory renal cell carcinoma patients: report of a phase II trial with two dose levels Ann. Oncol., 13 (8), pp. 1259-1263. https://europepmc.org/article/med/12181250
  • Loprinzi CL, Levitt R, Barton DL, Sloan JA, Atherton PJ, Smith DJ et al. (2005). North Central Cancer Treatment Group. Evaluation of shark cartilage in patients with advanced cancer: a North Central Cancer Treatment Group trial. Cancer 104(1):176.